História do Paraná esqueceu negros e pardos?

Leonardo Micheleto

Leonardo Micheleto

Graduado em História pela UFPR, Leonardo Micheleto, 25, inicia pesquisas sobre vida e obra de Wilson Martins, com vistas a dissertação para Pós-Graduação em Sociologia. Seu orientador é Ricardo de Oliveira.

Tema do trabalho: “A construção da ideia de um Paraná diferente”.

A tarefa de Micheleto deverá se desdobrar em vários capítulos, em parte concentrando-se nos livros “Brasil Diferente”, “História da Inteligência Brasileira”, além do “Construção do Paraná”, editado em Curitiba, pela Imprensa Oficial, nos anos 1990.

Há várias teses abordando a obra de Martins, além de artigos na imprensa que poderá igualmente trabalhar.

TEMAS POLÊMICOS

Crítico literário com amplas incursões na Sociologia e na História, Wilson Martins é nome indissociado de temas polêmicos. O mais notório deles, a defesa da tese de que o Paraná seria essencialmente um estado europeu não ibérico com predominância de populações brancas, graças as quais teria diferenciado-se positivamente no Brasil, o que fica implícito no texto.

Aos brancos deveria tudo que é, quase nada teria sobrado para os afrodescendentes, reclamam os opositores de Martins.

Não poucas vozes na academia insurgiram-se contra a linha assumida pelo intelectual que foi professor da UFPR e da Universidade de Nova York, além de ter sido crítico literário de O Estado de São Paulo e Gazeta do Povo.

TAREFA DE HÉRCULES

Micheleto deverá enfrentar tarefa hercúlea pela frente: além da vasta produção de Wilson, como crítico literário, e com a monumental História da Inteligência Brasileira, em 7 volumes, poderá deter-se em teses que sociólogos produziram sobre o intelectual de origem paulista.

Martins criado intelectualmente, em boa parte, sob a influência de Bento Munhoz da Rocha Neto, de quem era amigo, e com quem ampliou horizontes paranistas.

PARANÁ BRANCO

As restrições do mundo acadêmico a Martins devem-se, pois, muito ao fato de ele ter desconhecido – ou valorizado quase nada – a presença de populações negras ou pardas na formação do Paraná, realidade presente em “Brasil Diferente”.

Uma fonte ouvida pela coluna chegou a sair-se com esta: “Martins parece que absorveu muito os enunciados da diplomata brasileira Dora Vasconcellos que, nos anos 1950, escreveu uma ampla apologia da etnia branca, com seu livro White America”…

Dora era confessadamente racista.

PACIÊNCIA BENEDITINA

De qualquer forma, Leonardo Micheletto, jovem estudioso e intelectualmente bem equipado, dotado de paciência beneditina, terá de ouvir alguns paranaenses, gente do chamado patriciado curitibano, que conviveram anos a fio com Wilson Martins e conhecem muito bem seu pensamento.

OBRIGATÓRIOS

Dois deles serão obrigatórios em qualquer pesquisa que procure examinar a construção da ideia de um Paraná diferente (porque europeu): o ex-presidente da OABPR, Eduardo Rocha Virmond, e Pretextato Taborda Ribas Neto, advogado, ex-secretário de Estado da Justiça e ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho – Nona Região.

WACHOWICZ

Por último, mas não menos importante, lembro que o historiador Ruy Wachowicz, notabilizado pela história da imigração polonesa no Paraná, nunca absorveu “a preferência” de Martins pela imigração alemã no Estado. Em tom de mágoa, certa feita chegou a dizer que “Martins não é do ramo da Sociologia”.

GERMANÓFILO

Se Wilson Martins foi tido e havido como “germanófilo” em suas análises sobre a formação do Paraná, lembro de histórica briga de Valfrido Piloto com David Carneiro.

“Foi uma briga quase à base de bengaladas”, assinala um membro da Academia Paranaense de Letras (APL).

Os dois, já idosos, teriam levado a vias quase de fatos um de seus encontros/discussões.

Carneiro era um aguerrido defensor da influência lusa na montagem do Paraná. Posição contrária à de Piloto, escritor que muito valorizou as outras etnias, acima da germânica, especialmente a italiana, de que era descendente imediato.

Wilson Martins, Pretextato Taborda Ribas Neto, Eduardo Rocha Virmond e Ruy Wachowicz

Wilson Martins, Pretextato Taborda Ribas Neto, Eduardo Rocha Virmond e Ruy Wachowicz