Quando a Assembleia do Paraná joga para a torcida

John Stuart Mill

John Stuart Mill

Elaborado por velhas raposas da política paranaense, o que não é necessariamente um elogio, o projeto que liberava o consumo de bebida alcoólica nos estádios de futebol do Paraná foi “sutilmente” retirado da pauta na segunda-feira (12). A sutileza, diga-se, foi paquidérmica. Na prática, o comércio de cerveja, a bebida que se quer liberar, foi proibido em 2008 nas arenas de todo o Brasil, mas aos poucos, e com toda a malemolência, a venda vai sendo liberada através de leis locais, seguindo a regra do jeitinho brasileiro tão mal afamado.

LIBERDADE DO INDIVÍDUO

Alguém poderia apelar para John Stuart Mill, o filósofo inglês que repudiava a interferência do Estado na liberdade do indivíduo, exceto se afetasse um terceiro. Funcionou no caso do cigarro, mas não no da bebida.

REDUÇÃO DA VIOLÊNCIA

Os deputados favoráveis ao projeto argumentam que a liberação da bebida esconde um embate entre clubes de futebol e evangélicos, estes contrários à suspensão da lei. Não é bem assim. Há estatística farta sustentando que a violência das torcidas está diretamente relacionada ao consumo de bebida alcoólica nos estádios.

No primeiro ano da proibição da venda de cerveja nos campos de futebol, um levantamento mostrou que houve redução de 63% no índice de violência nos estádios de Pernambuco, de 57% em São Paulo e de 45% em Minas Gerais.

Mas o tema, já se viu, só ganha força, de forma sazonal, quando cenas de barbárie retornam à mídia com previsibilidade chocante. Eles (os políticos) não aprendem.

“O álcool reduz a censura e a autocrítica, o que facilita a ultrapassagem de limites e potencializa a agressividade e a violência”, diz um pesquisador experiente na área médica.

TEMPORÁRIO E DEFINITIVO

É certo. Existe o lobby das cervejarias e das indústrias de bebida, mas elas não podem ser consideradas vilãs. A pressão é do consumidor, dos clubes e dos comerciantes, motivados pela Lei Geral da Copa de 2014, que autorizou temporariamente a venda de cerveja dentro dos estádios. O temporário, contudo, foi entendido como definitivo nas arenas de Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Espírito Santo. No Rio Grande do Sul, o tema está na Assembleia Legislativa, e no Rio, que baniu a cerveja dos estádios no início dos 2000, voltou a ser discutido.

BRIGAS E VANDALISMO

A liberação da cerveja foi discutida na Câmara Municipal de Curitiba neste ano, mas acabou sendo arquivada por pressão do Ministério Público do Paraná e da Polícia Militar, que, em última instância, é quem lida com aqueles que excedem na bebida e se envolvem em brigas ou em atos de vandalismo.

Agora é a vez da Assembleia Legislativa do Paraná remar contra os números e abrir brechas para que os ébrios triunfem na escala de milhares. Os clubes ganham porque podem vender cerveja nos bares dos estádios. Mas perdem nas consequências, em caso de quebra-quebra e, de forma mais grave, em cenas de pancadaria e violência com vítimas. Já ocorreu anteriormente. Com a cerveja, a bebida, os tubões, os bares dentro e fora dos estádios, as torcidas organizadas e os “lobos solitários” dispostos a tudo, não será difícil ver, em breve, o mesmo filme triste nos telejornais.

Cenas deploráveis podem se repetir.

Cenas deploráveis podem se repetir.