SEMANA DA LITERATURA PARANAENSE: PARECE BONITINHO, MAS É ORDINÁRIO

Deputado Requião Filho: boas intenções

Deputado Requião Filho: boas intenções

Se você quer um exemplo de patriotada, vá ao campo de futebol. Uma lei concebida na Assembleia Legislativa obriga os torcedores a ouvir não só o Hino Nacional mas também o do Paraná. Parece bonitinho, mas é ordinário. Tanto que as emissoras de TV, quando transmitem os jogos, só o fazem a partir do “Virundu Ipiranga”. Sem concessões ao que é chato.

Há espaço sim para o ventre-mãe e coisas do tipo, mas não a ponto de nos impingir a pátria com mão de ferro, na forma da lei e aspecto de lição de Educação Moral e Cívica.

ÓLEO DE RÍCINO

Por essas e tantas outras, o governador Beto Richa fez muito bem em vetar a Semana Literária Paranaense, que obrigaria os alunos deste estado varonil a engolir os escritores da terra com o mesmo prazer que engoliriam uma colher de óleo de rícino.

O projeto do deputado Requião Filho (PMDB), foi aprovado pela Assembleia, e tinha tudo para ser cantado em prosa e verso, inclusive pelos autores paranaenses, mas bateu na trave (quem dera o Hino do Paraná…).

LIMITES DA LÍNGUA

Que não entendam mal. Nada contra o que se produz de literatura nos limites dos nossos pinheirais, mas seria de fato “coagir” – o termo é esse mesmo – os estudantes a ler o que está circundado às nossas fronteiras quando é preciso, antes, convencê-los a ler a literatura brasileira, esta já devidamente circundada à língua portuguesa.

Talvez o debate seja outro. Que literatura de fato as escolas estão adotando no mundo que vai além, muito além das semanas literárias? Ouso dizer, sob o risco de apedrejamento em praça pública, que os livros escolhidos são aqueles que as editoras empurram a preços módicos. Não importa se literatura estrangeira, brasileira, paranaense, tupiniquim.

FUBÁ MIMOSO

Basta uma pequena consulta aos sites do MEC, às autoridades educacionais, às escolas particulares. Há aberrações sem par, livros descartáveis, o best-seller da hora e aqueles de “inspiração dúbia”.

Machado de Assis, outrora tão vilipendiado, sumiu do mapa. Dalton Trevisan ainda passa por Paulo Leminski (e vice-versa) e, quando entra nas escolas, é pela porta dos fundos, carregando a pecha de escritor pornográfico ou maldito. Logo ele com aquele jeitão de fubá mimoso.

Machado de Assis, Leminski e Trevisan: confusões

Machado de Assis, Leminski e Trevisan: confusões

Com a farta oferta de leitura na internet, o que não quer dizer literatura, há de se esperar que livros de domínio público, como os de Machado de Assis, já tenham sido explorados por alunos e professores interessados em conhecer ou transmitir o melhor que a nossa literatura produziu. E posso incluir aqui na lista os lusos Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.

CONTEMPORÂNEOS

Entretanto, se é o caso de dar conhecimento aos contemporâneos, está aí o paranaense por adoção Cristóvão Tezza, e os nacionais Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Augusto de Campos e Raduan Nassar, entre outros.

Nenhum deles, raras exceções, é adotado nas escolas. Sequer lhes dedicam semana literária.

ATIREM A PRIMEIRA TESE

Mas, reforço, a questão a se discutir (e os que discordam atirem a primeira tese) não é a realização de semanas literárias paranaenses, mas sua imposição em forma de lei. O caro deputado Requião Filho tem lá suas boas intenções. O veto, no entanto, vem a propósito, porque se trata mesmo de “empurrar” a literatura goela abaixo do aluno quando sequer a brasileira ele se habilita a deglutir (ainda que apele à literatura “antropofágica” dos modernos).

SEM IMPOSIÇÃO DA LEI

Nada impede, contudo, que o parlamentar aproveite seu mandato para difundir a literatura paranaense em suas andanças. Saiba o deputado: as semanas literárias paranaenses ocorrem sim nas escolas. Mas jamais por imposição da lei. Ah se o hino do Paraná fosse entoado espontaneamente nos campos de futebol…