KASPER PÕE, FRANCISCO DISPÕE: DIAS DE FOGO ESPERAM PELA IGREJA

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Foi em torno da readmissão dos divorciados em segunda união aos sacramentos que girou grande parte da discussão a portas fechadas nos dois dias de consistório extraordinário sobre a família desejado por Francisco. Falou-se também de antropologia cristã, da relação com o contexto da cultura secularizada que “traz visões da família e da sexualidade muito diferentes” – como disse Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé –, mas foi sobre o valor da remissio peccatorum que as eminências debateram por mais tempo, “em um clima de realismo ao ver a dificuldade da situação, da visão cristã em uma cultura que vai em outras direções”.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 22-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um campo dentro do qual também entram a validade e a nulidade do matrimônio, questões sobre as quais alguns cardeais quiseram se deter “de um ponto de vista jurídico e canônico”. Entre a tarde de quinta-feira e a manhã de sexta-feira, as intervenções foram 43, acrescentou Lombardi. Outras se somaram à tarde, enquanto alguns purpurados preferiram deixar o seu pensamento por escrito.

A bússola de orientação foi o longo discurso teológico do cardeal alemão Walter Kasper, não por acaso elogiado novamente pelo papa na manhã da sexta-feira diante de 150 purpurados reunidos na sala nova do Sínodo: “Ontem, antes de dormir – mas não para adormecer – reli o trabalho do cardeal Kasper, e gostaria de agradecê-lo, porque eu encontrei profunda teologia, também um pensamento sereno na teologia”.

Uma palestra em que o pontífice argentino encontrou “o que Santo Inácio nos dizia, aquele sensus Ecclesiae, o amor à mãe Igreja”, o exemplo do que se chama “fazer teologia de joelhos”.

Nas duas horas utilizadas para a leitura da palestra, Kasper se limitou a fazer perguntas, até porque não era dessas reuniões que se devia esperar a resposta àquelas “problemáticas inéditas” que têm a ver com a pastoral da família e do matrimônio. Mais do que qualquer outra coisa, em um “clima de discernimento e de sabedoria”, o consistório foi uma espécie de abertura sobre os temas-objeto do Sínodo Extraordinário de outubro próximo e do ordinário de 2015.

Se a palestra do cardeal Kasper é o ponto de partida, sobre a mesa também estavam bem presentes os pilares da teologia do corpo de João Paulo II, da Familiaris consortio – que alguns bispos gostariam de arquivar por não estar mais em sintonia com o Zeitgeist, o espírito de tempo –, ao Catecismo da Igreja Católica.

O próprio Kasper, se de um lado havia reiterado a necessidade de refletir sobre os casos concretos de sofrimento (como são, por exemplo, os relativos aos divorciados em segunda união, que pedem a reaproximação dos sacramentos), de outro, deixou claro que a Igreja não pode, em caso algum, propor uma solução diferente ou contrária ao ensinamento de Cristo sobre a família.

Razão pela qual não é pensável a discussão da indissolubilidade do matrimônio sacramental ou a impossibilidade de um segundo matrimônio se o cônjuge anterior ainda está vivo. Nem mesmo se remetendo à misericórdia, já que “misericórdia e fidelidade devem ser conjugadas de modo crível”.

Por outro lado, ainda na quinta-feira, o ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos dissera concordar com o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Gerhard Ludwig Müller (que recebeu o barrete cardinalício juntamente com outros 18 prelados) “sobre questões fundamentais”.

Enquanto isso, foi completada a equipe chamada para liderar o Sínodo de outubro próximo: se já eram conhecidos os nomes do relator-geral (o cardeal Peter Erdő, arcebispo de Budapeste, que cresceu na escola de Hans Urs von Balthasar e da revista Communio, que teve entre os seus fundadores o professor Joseph Ratzinger) e do secretário especial (o arcebispo de Chieti-Vasto, Dom Bruno Forte), Francisco nomeou como presidentes da cúpula o cardeal André Vingt-Trois, arcebispo de Paris, Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, e o brasileiro Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida.