TELEGRAMÁTICA, CRIADA POR LUIZ GONZAGA PAUL, DEU UM ALÔ À LÍNGUA PORTUGUESA

Luiz Gonzaga Paul : amplo depoimento de dias pioneiros

Luiz Gonzaga Paul : amplo depoimento de dias pioneiros (foto Annelize Tozetto)

Em 1990, quando o serviço de Telegramática da prefeitura de Curitiba contava cinco anos, alguém ligou indagando o significado da palavra ‘popelírio’. Foi um deus-nos-acuda. O professor, coordenador e criador do serviço Luiz Gonzaga Paul percorreu as estantes de 400 gramáticas e dicionários e não resolveu a dúvida. Não havia internet à disposição e o Google sequer fora pensado. O significado da palavra ficou no ar porque definitivamente ela não estava dicionarizada.

INSERIDA NO CONTEXTO

Em entrevista para edição número 10 do Vozes do Paraná, Paul lembra desse e de outros casos que fizeram do Telegramática um sucesso, principalmente entre jornalistas, advogados, professores e secretárias.

Não se tratava apenas de descobrir o que queria dizer a palavra, mas inseri-la no contexto, uma expressão muito em voga na época. “O uso de locuções, a flexão do verbo no infinitivo, a pontuação e o elementar uso de pronomes demonstrativos como este ou esse”, lembra o professor e ex-teólogo claretiano, não ordenado, que estudou Filosofia, Teologia e Direito.

PÉ-DE-PATO

Houve um caso intrigante. Um pai ligou dizendo que havia proposto o seguinte enunciado ao filho: “Quantas patas têm três patos?” Queria saber se estava correto, uma vez que para ele pato tem pata, não pé.

Depois de uma confabular brevemente com seus assistentes, Paul concluiu que tanto faz. Utilizasse pata ou pé estava correto, afinal havia a expressão pé-de-pato.

‘GRAMMAR PHONE’

O serviço Telegramática foi criado em 1985, na administração do prefeito Maurício Fruet. Havia um antecessor, no estado do Arkansas, nos EUA, chamado Grammar Phone, e um projeto incipiente na Universidade Estadual de Londrina, mas foi em Curitiba que a ideia ganhou notoriedade e projetou-se para o mundo.

Diariamente, oito professores revezavam-se em dois turnos, sob a coordenação de Paul, para resolver todo e qualquer problema relacionado à “inculta e bela” língua portuguesa.

BIBLIOTECA PARTICULAR

O que é livroxada? E palonço? Já ouviu falar em ulyssista? Paul lembra que, a princípio, muitas das gramáticas e dicionários que socorriam os professores vinham de sua biblioteca particular. Aos poucos, no entanto, o município encarregou-se de municiá-los com todas as novidades que surgiam nas prateleiras.

MAIS DE UM MILHÃO DE CONSULTAS

Nada. Nada mesmo era respondido sem fundamentação. Recorria-se, pela ordem, primeiro ao Aurélio, depois à Enciclopédia Mirador e, finalmente, ao Webster. Paul se preocupou em escrever um livro de regras para a Telegramática, que segue sendo consultado até hoje. Em princípio a resposta ao consulente deveria ser imediata. Quando a dúvida não era resolvida imediatamente, anotava-se o telefone da pessoa para que houvesse o retorno tão logo o serviço tivesse a resposta. O trabalho era frenético e a popularidade o tornou ainda mais.

Em cinco anos a Telegramática do professor Paul atingiu 100 mil consultas. Hoje, três décadas depois, passa de um milhão.

ANTES DA INTERNET

Na era pré-internet, recorria-se, além dos livros que lotavam as prateleiras da sede do serviço instalada no primeiro andar da Galeria Schaffer, com amplas janelas para a Rua das Flores, dois arquivos com aproximadamente 90 mil fichas. Recorria-se a tudo. Um consulente tinha lá suas predileções por termos sexuais (por certo um fetichista). Paul mandou comprar um dicionário de sexo. Palavrões também chegavam do outro lado da linha. Mas não se dirigiam aos professores, sempre muito gentis.

A dúvida era o significado de palavras que não se publicam. Paul encomendou um léxico de palavrões.

MUTAÇÃO DA LÍNGUA

Claro que, com a chegada da internet, descobrir o significado de uma palavra não ficou assim tão difícil. Mas, e quanto à construção da frase? Eis a questão. “A ingrata das gentes sempre nos apanha”, diz Paul referindo-se ao português e também ao latim e ao grego que estão entranhados na construção de nossa cultura linguística. Fosse por ele e a reforma da língua ocorreria a cada 25 anos, tão dinâmica ela se apresenta. “Muitas das dúvidas que registrávamos nos dez anos que coordenei o serviço estavam ligadas à mutação entre o que falamos e o que escrevemos”, diz.

MISTÉRIO

Mas o que significa mesmo ‘popelírio’? Acredite, 27 anos depois o termo ainda não foi dicionarizado. Desconhece-se o seu significado e também o paradeiro do consulente.

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(foto Annelize Tozetto)

(foto Annelize Tozetto)

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