SEGREDO BEM GUARDADO DE LUIZ GONZAGA PAUL

Luiz Gonzaga Paul  (foto Annelize Tozetto)

Luiz Gonzaga Paul (foto Annelize Tozetto)

Pai do serviço Telegramática da Prefeitura de Curitiba, apesar de renegar o título com certo constrangimento, o professor Luiz Gonzaga Paul está envolvido em um projeto de startup que guarda a sete chaves.

Aos 86 anos, ele mantém uma empresa de revisão e transcrição de textos chamada ArteFaz, no andar superior de sua casa. Trata-se de um empreendimento pequeno, mas de grandes ambições. Recentemente, ele e seus funcionários (poucos) encarregaram-se de deslindar horas de conferências da Escola da Coisa Freudiana, fundada em 2003 na capital paranaense.

Agora Paul debruça-se sobre a revisão de três teses de doutorado com as quais trava dura batalha gramatical e de estilo. Vale dizer: clareza é uma das exigências de Paul. Ele repele qualquer preciosismo que confunda o leitor e torne o texto ininteligível ou, como diria Paulo Francis, impenetrável.

ERA FAX, HOJE É FAZ

A Arte Faz tem uma curiosidade. Nasceu ArteFax no fim da década de 90, quando ainda era corriqueiro o envio de texto para correção via fac-símile, termo que vem do latim fac símile (faz igual). Fax tornou-se o nome da máquina que, diga-se, teve vida curta. Hoje é quase peça de museu. Quase porque ainda ela está presente em certas empresas, aparecendo até mesmo nos cartões de visitas dessas organizações.

DICIONÁRIO DE FORMAS DE TRATAMENTO

Na entrevista que fiz com o linguista, juntamente com o também jornalista Marcus Vinicius Gomes para o livro “Vozes do Paraná 10″, uma edição por si só simbólica: Paul (que se pronuncia “paú”) deu pista do que planeja para o próximo ano.

Trata-se de aplicativo voltado a responder questões relacionadas à saúde. Em 2008, ele escreveu um guia-dicionário para uso de formas de tratamento do português que se tornou referência para diretores, secretárias, executivos e administradores públicos que necessitam trocar correspondências formais cotidianamente.

O “Dicionário de Formas de Tratamento” (Editora AGE, 322 págs.) ou DFT, no acrônimo construído por ele, apresenta de forma didática de A a Z, todas as maneiras usadas em língua portuguesa para referir-se às autoridades de diversos matizes no termo apropriado. É um achado, para dizer o mínimo.

MISTÉRIO NA INTERNET

A próxima empreitada de Paul insere-se no mundo da internet (um App da área de saúde) com quem, aliás, ele guarda boas relações. O lançamento deve ocorrer no ano que vem e Paul tem se cercado de especialistas, além do filho mais velho, João Luís de Gonzaga Paul, que é médico, para auxiliá-lo. No mais, pouco se sabe.

FUNCIONÁRIO DA ITAIPU AOS 65 ANOS

O professor é mesmo dono de uma característica: criar soluções criativas para temas que carecem de dicionarização ou de clareza gramatical. Foi assim na Biblioteca Pública, na Codepar (Companhia de Desenvolvimento do Paraná), na Casa Civil do segundo governo Ney Braga (1979-1982), onde criou a assessoria técnica, hoje pomposamente chamada de Centro de Edição de Expediente Oficial, no Telegramática e, já no século XXI, na Itaipu quando, entrado nos 65 anos, foi convidado para cuidar da revisão, tradução e preparação de texto dos mais diversos documentos, manuais e informativos da companhia.

DE SCALCO A SAMEK, QUALIDADES

De Itaipu Paul tem muitas boas lembranças, especialmente as que envolvem contatos com o então diretor geral do lado brasileiro, Euclides Scalco. Para ele, o tucano se caracterizava pela organização, extrema organização e objetividade. Nada se perdia do que ele falava ou escrevia, garante.

Acha que outro diretor-geral com quem trabalhou, Jorge Samek, enfeixava igualmente inúmeras qualidades.

– Samek sempre dizia que eu conseguia sintetizar de forma muito precisa.

Ele se caracterizava pelo bom trato com todos, e pela formação técnica.

O HINDENBURG NO CÉU

Paul nasceu em Curitiba no dia 21 de dezembro de 1931, na rua Paula Gomes, em uma casa que era quase esquina com a Almirante Barrozo. Em frente, um orfanato de freiras, que talvez o tenha incutido na cabeça a ideia de ser um padre católico. E quase foi. No céu, passou um dia o dirigível Hindenburg. É uma lembrança de sua ascendência germânica.

Paul, ele diz, é sobrenome de pobre. O avô paterno, que depois seria um dos numerosos imigrantes que desembarcaria no Brasil, ávido por terras e por uma vida de novas oportunidades, ainda no século XIX, era ele mesmo nascido num vilarejo encravado na fronteira entre a Polônia e a hoje República Tcheca. Chamava-se Rennersfeld e, segundo Paul, se fazia tão pequeno que era mesmo digno do nome que ele lhe daria nos anos seguintes: fim de mundo.

EMÍLIO GAUDEDA, CRIADOR

Por último, mas não menos importante: aqui se disse no início que o professor Luiz Gonzaga Paul recebe com certo constrangimento a alcunha de “pai do Telegramática”. Não se trata de desconsideração nem excessiva modéstia. A seu ver, o esforço na criação do serviço foi do também professor Emílio Gaudeda, que moveu mundos e fundos na prefeitura administrada por Maurício Fruet, onde trabalhava, para que o projeto se concretizasse.

CRIOU AS REGRAS

Paul criou as regras, selecionou pessoal, coordenou o serviço nos seus primeiros anos, deu a ele notoriedade e, quando percebeu a carência de fontes e de material de pesquisa, trouxe ele mesmo livros de sua biblioteca particular para que nada ou quase nada ficasse sem resposta.

É um registro importante.

Jorge Samek:  bom de comunicação; Euclides Scalco: organizadíssimo

Jorge Samek: bom de comunicação; Euclides Scalco: organizadíssimo (Foto Daniel Castellano)