A SURDEZ, A EPHETA, AS FREIRAS E A PROVA DO ENEM

Escolha Epheta: fechada para surdos

Escolha Epheta: fechada para surdos

O tema surdez proposto pelo recente exame do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) pegou quase todos os participantes de “calça curta”.

As causas da surdez – e são muitas, desde as congênitas -, a LIBRAS, língua brasileira de sinais, os tratamentos possíveis à situação, os serviços que o SUS presta ao mundo dos surdos, as escolas especiais, enfim a amplidão de linhas para a redação seriam muitas.

Mas pouquíssimos se saíram bem na redação do ENEM. Ou ninguém?

A FUNDADORA, NYDIA MOREIRA GARCEZ

A fundadora da Epheta foi Nydia Moreira Garcez, filha do casal João Moreira Garcez e Leonor. Ele foi prefeito de Curitiba.

Nydia ficou surda aos 5 anos. Depois de estudar até os 19 com um filólogo, no Rio, que se especializara em educação de surdos, ela ingressou na congregação católica que depois seria a mantenedora da Epheta (e também da Escola de Educação Familiar, ambas na Rua Bento Vianna).

A Educação Familiar nos anos 1960 reunia o “crème” da chamada classe alta curitibana feminina. Por isso, em tom jocoso, foi apelidada de “caça maridos”: os jovens também classe alta, faziam diárias e pontuais incursões aos portões da escola, em busca de contatos e namoros com as jovens alunas.

DIFERENCIAL

Metodologia EPHETA – Proposta pedagógica de ensino da língua portuguesa na área da surdez/deficiência auditiva: facilitando a inclusão social, pelo ensino da língua portuguesa por meio da oralidade e recursos auditivos para a pessoa com deficiência auditiva: Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), Implante Coclear (IC) e Sistema FM. Estes recursos são disponibilizados por meio de políticas públicas de saúde e educação à pessoa com deficiência auditiva.

DEMOS O ALERTA EM ABRIL

Em abril deste ano esta coluna revelou em primeira mão, que a Escola Epheta, de Curitiba, especializada em atendimento de surdos iria fechar, interrompendo um trabalho nascido em 1960.

Tentei mostrar as dificuldades que a Epheta vinha enfrentando, ela que havia se tornado modelar para o país, na educação dos surdos, trabalho que hoje ia muito além do ensino da linguagem de sinais, mas envolvendo a escolarização com recursos a modernas tecnologias.

NÃO FALTOU SÓ DINHEIRO

Mantida por uma com congregação religiosa feminina de freiras, nascida durante a Revolução Francesa, a Epheta cumpriu missão quase apostólica.

De início, a escola curitibana foi comandada por dona Nydia, filha do histórico prefeito Moreira Garcez. Ao entrar na congregação para “exercer uma obra de caridade”, ela atraiu outras moças da chamada alta sociedade de então.

Mas o que acabou prevalecendo neste 2017 foi a decisão das religiosas, e a Epheta, como escola de surdos, encerrou suas atividades há 1 mês.

Não faltou dinheiro para a obra, afirmam fontes que conhecem bem a área: o SUS oferta amplo atendimento, entregando próteses aos surdos, acesso a médicos especializados e garantindo até cirurgias cocleares.

Organismos da Prefeitura, do Estado e do Governo federal poderiam continuar apoiando financeiramente a Epheta. Meios materiais, além das mensalidades, existiriam sempre, opinam minhas fontes.

VELHICE DECRETOU O FIM DA OBRA

O desinteresse da congregação mantenedora da Epheta tem explicação: A escola, ocupando prédio em meia quadra no Batel, com entrada pela Bento Vianna, tem manutenção cara, e professores especiais. Mas as religiosas, que estão idosas, não costumam delegar o comando de suas obras a leigos. Elas têm de estar na direção, o que não mais é possível em Curitiba, onde a velhice atinge frontalmente a entidade mantenedora.

Dom Ricardo Hoepers: especialista em surdos

Dom Ricardo Hoepers: especialista em surdos

A mais idosa das irmãs tem 105 anos – mora numa casa que elas mantêm em Vila Guaíra – e a mais moças 83.

No endereço enorme da Bento Vianna, projeto do engenheiro Euro Brandão – que foi ministro da Educação e reitor da PUCPR -, a escola continua apenas com ensino profissionalizante voltado a jovens aprendizes.

BISPO ESPECIALISTA EM LIBRAS

O bispo da cidade de Rio Grande, dom Ricardo Hoepers, é um especialista em linguagem brasileira de sinais, a LIBRAS. Quando padre em Curitiba abrigou na sua então paróquia, a São Francisco de Paula, uma “paróquia particular”, criada pela Arquidiocese, dirigida por um padre surdo de nascença. Reunia surdos de Curitiba para vida cristã, com atividades sociais e religiosas. Essa paróquia hoje está inserida na Igreja de Vila Isabel, Rua Ulisses Vieira.