TRIBUNAL DA INTERNET: WILLIAM WAACK NÃO MERECIA ISSO

William Waack; Torres Gêmeas, de NY; Ana Paula Padrão

William Waack; Torres Gêmeas, de NY; Ana Paula Padrão

Nem mesmo a revista “Veja” desta semana ousou abordar o caso William Waack sem se armar de dedos e cuidados. Se a poderosa Globo afastou o jornalista tão logo soube do vazamento do vídeo em que ele dizia, em privado, “é coisa de preto”, temerosa, por certo, que a demora na reação provocasse um mal-estar com anunciantes, patrocinadores e a audiência, imagine a “Veja”, tão sequiosa por engordar suas páginas de anúncios.

COMITÊ BRASILEIRO DE VIGILÂNCIA DO PENSAMENTO

Coube a José Roberto Guzzo, conhecido por se arrepiar ante os perigos que rondam a liberdade de expressão, desancar o que chama de Comitê Brasileiro de Vigilância do Pensamento. Cá para este colunista é lamentável, por todas as razões, que Waack tenha escorregado nesse tipo de preconceito baixo e enraizado da civilização. Mas seria baixo e, de toda sorte, enraizado, se não o compreendêssemos em suas idiossincrasias.

JUIZ FDP

O que Waack disse, admita-se, é coisa nossa, tão frequente quanto a torcida chamar o juiz de FDP, o que certamente não é uma ofensa direta à sua mãe, ou o goleiro de bicha, o que rende uma multa determinada pela Fifa (a Fifa “ética”, a Fifa “exemplar”). Bem-vindos ao mundo da hipocrisia.

TIME DE JAPONÊS, ETC.

Deixemos de lado a expressão “coisa de preto”. Que tal “time de japonês”, “Só podia ser mulher”, “Deixa de baianice”, “Turco ladrão”, “Alemão azedo”, “Português de estrebaria”, “Polaco Bêbado”? Já adianto: não se quer aqui relativizar nada. Relatividade é para físicos como Einstein. O que se quer é mostrar que algumas expressões – preconceituosas, sim, elas são – estão entranhadas em nossa cultura. E não é uma punição ou a destruição da carreira de um jornalista que, aliás, nunca expressou profissionalmente qualquer opinião de racismo ou de preconceito que irá sanar a histórica fieira de julgamento que fazemos em nosso dia a dia. Não só no Brasil. Em todo mundo.

DOIS PASSOS À FRENTE

Lembremos, para aqueles que insistem em esquecer, que essa não é uma sociedade dividida em castas, como ocorre na Índia, tampouco uma democracia racial, como a americana. Somos um país miscigenado, bem-sucedido nesse quesito e invejado pela mesma razão em todos os cantões. Na Europa, fala-se multiculturalismo. Nós estamos um, talvez dois passos à frente.

11 DE SETEMBRO

O que nos restou é uma campanha do ódio disseminada pela internet, e que, agora, dedica-se a linchamentos públicos de personalidades e celebridades. Waack é um jornalista exemplar. Foi correspondente internacional de “Veja”, cobriu guerras, desastres naturais e atentados terroristas. No 11 de Setembro foi chamado às pressas para comentar o ataque às Torres Gêmeas e socorrer Ana Paula Padrão, que já se enrolava, porque conhecia como ninguém a Al-Qaeda e seu líder, Osama Bin Laden.

A DECISÃO DE UM GRUPO DO WHATSAPP

O vídeo gravado quando o jornalista preparava-se para entrar no ar, após a vitória de Donald Trump nas eleições americanas, foi salvo e guardado durante um ano. Ficou à disposição de um operador de TV (negro), evidentemente indignado, que depois o compartilhou com um amigo pelo whatsapp (este também negro). Mas foi aí que a bizarrice teve início. Visto por um grupo da rede social, discutiu-se sua disseminação. Um tribunal ‘robespierriano’ tratou de cortar a cabeça de Waack. Em sete horas, o vídeo viralizou.

SANGUE NOS OLHOS, FACA NOS LÁBIOS

A denúncia do “racismo” indulta o grupo de editores no whatsapp de qualquer ação reprobatória. Reluta-se agora em chamá-los de alcaguetas ou de bate-paus. Não é o caso deste colunista. Deliberadamente, eles sabiam que podiam destruir uma carreira. Waack disse que não se lembrava do comentário que fez em privado, o jornalista que estava ao seu lado também não.

DESCULPAS

De qualquer forma, ele pediu desculpas. Não foram aceitas. Há um misto de sangue nos olhos e faca nos lábios entre os que habitam o mundo virtual. Não há nenhuma novidade nisso. Não se quer censura na internet. Jamais. O que se quer é discernimento. Avaliação de consequências. Já se viu. A fake news veio para ficar. Um em cada cinco tweets gerados na campanha americana, no ano passado, era disparado por robôs. O linchamento digital gera efeitos deletérios e a cada vez em mais curto prazo. O futuro (breve) parece, portanto, distópico. Dizer que, a essa altura, um disseminador de veneno pode estar prestes a prová-lo, é só um detalhe.