“HISTÓRIA FETICHISTA” HOMENAGEIA O ESCULTOR ESPEDITO ROCHA

Luiz Carlos Rocha e Jessé de Souza: explicando a obra; Gramschi: na base de tudo.

Luiz Carlos Rocha e Jessé de Souza: explicando a obra; Gramschi: na base de tudo.

A esquerda tradicional, formada no interior do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, certamente perdeu um round, mas não perdeu a luta. Em sua mais recente obra, o professor Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves, reprisa o embate com o conservadorismo de direita em obra que utiliza o italiano Antônio Gramsci como base teórica para explicar o ocultamento deliberado da luta de classes na sociedade capitalista brasileira. Parece coisa de acadêmico. E é.

FETICHISMO

Gonçalves tem em Gramsci e em petistas como Aloízio Mercadante o seu sustentáculo teórico. Por isso vê em seu livro “História Fetichista” (316 págs.), editado em formato e-book pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, um argumento precioso para explicar esse “prazeroso segredo” da burguesia.

COMPANHEIRO DE VIAGEM

96-Livro inclA capa e contracapa do livro são uma homenagem à obra do escultor, operário e dirigente comunista Espedito Rocha (1921-2010), amigo de Gonçalves e também seu “companheiro de viagem”, uma expressão com que os bolcheviques tratavam-se mutuamente no longo caminho que os levou às portas e a consolidação da revolução russa, 100 anos atrás.

A ELITE DO ATRASO

Pode-se discordar de Gonçalves, mas jamais desprezar a legitimidade de sua argumentação. É assim com o historiador e é assim também com Jessé de Souza, autor de 27 livros, entre eles o mais recente: “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” (Leya, 2017).

EXPRESSÃO LEGÍTIMA DO INTELECTUAL

Filho de Espedito Rocha, o advogado Luiz Carlos da Rocha, que apresenta o “Jogo no Poder”, na CNT, aos domingos, vê na obra de Souza a expressão legítima de um intelectual. A base da formação do cientista social fala por si mesma. Souza é mestre e doutor em sociologia e um dos maiores estudiosos da formação e do comportamento da classe média no Brasil. Em 2009, lastreado por obras icônicas de Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes e Raimundo Faoro, entre outros, Souza empreendeu pesquisa sociológica em todo o país para confrontar a tese de que havia surgido uma nova classe média no país. O resultado foi a configuração de uma nova nomenclatura que ainda suscita polêmica.

Utilizando-se da informalidade das ruas, o teórico denominou as classes sociais no Brasil como “ralé” (pobres), “batalhadores” (classe média) e “ricos”. Deu o que falar.

VOLTA À CENA

Ainda que não se concorde com ele (e muitos não concordam), a definição serviu para esquentar os ânimos nos meios acadêmicos. A ponto de, recentemente, Souza desafiar um professor da USP para o debate. É manejando o bom argumento que Souza quer convencer seus oponentes.

Gonçalves surge agora com o mesmo propósito. Não há mais dúvida, portanto. A esquerda ensaia uma volta à cena, ainda que desprovida do brilho que fez do Partidão um ninho de intelectuais. Espedito que o diga.